Compliance

ANVISA RDC 658/2022: o que mudou na BPF

Indústria farmacêutica brasileira viveu mudança regulatória importante em 2022. Após 12 anos da RDC 17/2010, a ANVISA publicou a RDC 658/2022 - novas Boas Práticas de Fabricação de Medicamentos.

A mudança não é cosmética. RDC 658 alinha o Brasil com o PIC/S (Pharmaceutical Inspection Co-operation Scheme), padrão internacional de inspeções farmacêuticas adotado por reguladoras de mais de 50 países. Significa: empresa brasileira em conformidade com 658 está mais próxima de exportar pra mercados regulamentados (UE, Reino Unido, Japão, Austrália, Canadá).

Vou explicar o que mudou, o que é Quality Risk Management (ICH Q9) que ganhou destaque, e o cronograma de adequação.

Resumo das principais mudanças

Aspecto RDC 17/2010 RDC 658/2022
Alinhamento internacional OMS PIC/S (mais rigoroso)
Quality Risk Management Mencionado Estruturado (ICH Q9)
Pharmaceutical Quality System Genérico Detalhado (ICH Q10)
Anexos específicos Limitados 14 anexos (estéreis, biológicos, gases medicinais, etc)
Validação Tradicional Lifecycle approach
Transferência tecnológica Não detalhado Capítulo específico
Capacidade de inspeção Brasil-centric Reconhecimento mútuo via PIC/S

Os 4 pilares da RDC 658

Pilar 1: Pharmaceutical Quality System (ICH Q10)

Sistema de Qualidade Farmacêutico estruturado conforme ICH Q10. Vai além de procedimentos isolados:

  • Política da qualidade aprovada pela alta direção
  • Manual da qualidade que cobre todo ciclo de vida do produto
  • Gestão da mudança formalizada (change control)
  • Revisão da qualidade do produto (Product Quality Review - PQR) anual
  • Análise crítica pela direção (Management Review)

Pilar 2: Quality Risk Management (ICH Q9)

Talvez a maior mudança. RDC 658 obriga aplicar QRM em todo ciclo de vida:

  • Desenvolvimento (avaliação de risco no design)
  • Mudanças (avaliação de impacto antes de aprovar)
  • Desvios (análise de causa-raiz com risco)
  • Validação (escopo definido por risco)
  • Auditorias internas (priorização baseada em risco)

Ferramentas comuns: FMEA, FTA, HACCP, Risk Ranking, Hazard Analysis. Empresa que tem só "análise de risco genérica" está em não-conformidade.

Pilar 3: Validação e qualificação - lifecycle approach

RDC 658 muda paradigma de validação. Em vez de "validar uma vez e arquivar", introduz continuous process verification:

  • Stage 1 - Process Design: caracterização do processo na fase de desenvolvimento
  • Stage 2 - Process Qualification: validação tradicional (PV)
  • Stage 3 - Continued Process Verification: monitoramento contínuo durante produção comercial

Qualificação de equipamentos/sistemas continua em IQ, OQ, PQ - mas integrada ao lifecycle do processo.

Pilar 4: 14 anexos específicos

Talvez o ponto mais subestimado. RDC 658 inclui 14 anexos com requisitos específicos por tipo de produto/operação:

  • Anexo 1: Produtos estéreis (totalmente reformulado em 2022)
  • Anexo 2: Biológicos
  • Anexo 3: Radiofármacos
  • Anexo 4: Veterinários (não-imunológicos)
  • Anexo 5: Veterinários imunológicos
  • Anexo 6: Gases medicinais
  • Anexo 7: Fitoterápicos
  • Anexo 8: Amostragem de matéria-prima
  • Anexo 9: Líquidos, cremes, pomadas
  • Anexo 10: Inaladores dosimetrados
  • Anexo 11: Sistemas computadorizados
  • Anexo 12: Investigacionais
  • Anexo 13: Hemoderivados
  • Anexo 14: Importadores de medicamentos

Cada anexo expande os requisitos base. Empresa que fabrica estéreis precisa atender Anexo 1 (totalmente reformulado em 2022, com nova abordagem de Contamination Control Strategy).

O que muda na inspeção ANVISA

Inspetores ANVISA estão treinados em PIC/S. Espera-se observar:

  • Maior profundidade em verificar QRM aplicado a casos reais
  • Avaliação rigorosa do PQR (Product Quality Review)
  • Inspeção de change control - mudanças foram avaliadas com QRM?
  • Verificação de dados de Continued Process Verification
  • Compliance com anexos específicos da operação
  • Cultura de qualidade visível (não só procedimentos no papel)

Cronograma de adequação

RDC 658 entrou em vigor com prazos progressivos:

  • Maioria dos requisitos: já vigentes
  • Anexo 1 (estéreis): adequação até final de 2024 (algumas empresas estendido)
  • Continued Process Verification: implementação progressiva

Empresa que ainda opera sob RDC 17/2010 sem adaptar está fora de prazo na maioria dos requisitos.

Caminho de adequação prática

Pra indústria farmacêutica que tem RDC 17/2010 madura mas precisa migrar:

  1. Gap analysis vs RDC 658 - documentação detalhada de cada cláusula
  2. Atualização do Pharmaceutical Quality System conforme ICH Q10
  3. Implementação de QRM estruturado com workflows específicos
  4. Atualização do PQR com novos requisitos
  5. Adequação de anexos aplicáveis (Anexo 1 é o mais trabalhoso)
  6. Treinamento da equipe em ICH Q9, Q10 e nova abordagem
  7. Auditoria interna integrada sob nova régua
  8. Mock inspection antes da inspeção real ANVISA

Tempo total: 12-24 meses dependendo do tamanho da empresa e quantos anexos aplicáveis.

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Klaus Fuchs
Klaus Fuchs Founder da facilita.etc. 15+ anos liderando gestão estratégica em saúde, educação e organizações sociais. Conduziu acreditações em uma das maiores OSS do Brasil. Escreve sobre o que pratica.

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