Gestão

56% dos CEOs não veem retorno da IA. O buraco não é a tecnologia, é o KPI que ninguém definiu

O número que abre a pesquisa State of AI 2026 da McKinsey deveria constar em toda reunião de diretoria deste semestre: 91% das empresas já usam inteligência artificial em pelo menos um processo, contra 78% em 2024. A adoção virou commodity. E, no entanto, no mesmo levantamento, 56% dos CEOs afirmam não ter registrado nenhum retorno mensurável de IA nos últimos 12 meses. Um grupo minúsculo, cerca de 6% dos respondentes, os chamados AI high performers, atribui mais de 5% do próprio EBIT à tecnologia.

Dois números, a mesma ferramenta, resultados opostos. A pergunta que interessa não é se você deveria adotar IA (esse debate acabou), e sim por que a esmagadora maioria adota e não colhe nada. A resposta que a McKinsey isola é desconfortável de tão simples: a prática com maior impacto no resultado financeiro é rastrear KPIs bem definidos para as soluções de IA. Não é o modelo mais caro. Não é o time de cientistas de dados. É medir.

O recorte que quase ninguém comenta: só cerca de um terço das organizações escalou IA para além dos pilotos. A distância entre "testamos uma ferramenta" e "embutimos no processo e medimos o efeito" é onde o valor vaza.

Por que o piloto de IA morre sem deixar rastro

O padrão se repete em empresa de qualquer porte, e no Brasil talvez com mais força porque a adoção veio pela porta do entusiasmo, não da estratégia. Alguém do time descobre uma ferramenta, automatiza a redação de e-mails ou o resumo de reuniões, o resultado parece mágico por duas semanas, e depois some do radar. Ninguém mediu o antes. Ninguém definiu o que "funcionar" significava. Quando o CFO pergunta quanto aquilo economizou, a resposta honesta é: não sei.

Esse é o mecanismo por trás dos 56%. Não é que a IA não gerou ganho. É que o ganho nunca foi instrumentado, então para efeitos práticos ele não existe. Um custo que caiu e ninguém contabilizou é indistinguível de um custo que não caiu. Gestão baseada em sensação não sobrevive a uma auditoria, e IA sem baseline é exatamente isso.

A McKinsey ainda registra que 23% das empresas já escalam algum sistema de IA agêntica e outros 39% experimentam agentes. Ou seja, a fronteira já se moveu para sistemas que executam tarefas de ponta a ponta, não só sugerem texto. Se a organização não conseguiu medir o impacto de um assistente que resume documentos, ela vai medir o impacto de um agente que aprova despesas? Dificilmente. O problema de medição não escala junto com a tecnologia; ele fica pior.

O que os 6% fazem de diferente

Os high performers não têm IA melhor. Têm disciplina de gestão melhor, aplicada à IA. Três traços aparecem de forma consistente na pesquisa:

  1. KPI antes da ferramenta. Eles definem qual métrica a solução precisa mover (tempo de resposta ao cliente, custo por chamado, taxa de retrabalho, horas de fechamento contábil) antes de escolher a tecnologia. A ferramenta é escolhida para atacar um número, não o contrário.
  2. Roadmap explícito de adoção. Nas organizações maiores, ter um roteiro claro para dirigir a adoção de IA generativa é um dos fatores de maior impacto no lucro. Adoção não é evento, é processo com dono, prazo e revisão.
  3. Redesenho do processo, não enxerto na ferramenta. Eles mudam como o trabalho é feito, e só então plugam a IA. Enfiar um copiloto num processo quebrado só acelera o retrabalho.

A IA não cria disciplina de gestão. Ela amplifica a que já existe. Onde havia método, o ganho aparece e é medido. Onde havia improviso, o improviso fica mais rápido e igualmente invisível.

Como transformar isso em prática nesta semana

Não é preciso um comitê de transformação digital para começar a fechar o buraco dos 56%. É preciso escolher um processo, um só, e tratá-lo com rigor de indicador. O roteiro mínimo:

  • Escolha um processo com número claro. Atendimento de primeiro nível, triagem de não conformidades, elaboração de relatórios recorrentes, análise de contratos. Algo que hoje consome horas rastreáveis.
  • Meça o baseline por duas semanas. Quantas horas, quantos erros, qual custo, qual prazo médio. Sem esse número de partida, qualquer ganho futuro é lenda.
  • Defina a meta e o dono. "Reduzir o tempo de fechamento do relatório de qualidade de 6 para 2 horas até o fim do trimestre." Com nome e sobrenome de quem responde.
  • Só então escolha a IA. E prefira a especialista no problema à genérica que faz tudo mais ou menos.
  • Revise o KPI mensalmente. Se o número não mexeu em 60 dias, ou o processo estava errado ou a ferramenta estava errada. Nos dois casos você aprendeu algo, o que já é mais do que os 56% conseguem dizer.

Repare que nada nesse roteiro é sobre tecnologia. É sobre gestão. É a diferença entre comprar uma balança e efetivamente se pesar toda semana. A balança sozinha nunca emagreceu ninguém.

O ponto cego brasileiro: PME acha que isso é papo de multinacional

Existe um mito confortável de que medir ROI de IA é luxo de empresa grande, com BI parrudo e diretoria de dados. É o contrário. Quanto menor a empresa, mais cada hora economizada pesa no caixa, e mais barato é instrumentar um único processo. Uma clínica de 40 pessoas que reduz o tempo de triagem de eventos adversos, ou uma indústria média que corta o retrabalho de laudos, sente o efeito no mês seguinte, não em três anos de transformação.

O que falta à PME não é orçamento de IA. É o hábito de amarrar iniciativa a indicador. Frameworks clássicos de gestão existem justamente para isso: o OCF e outros modelos de gestão por objetivos forçam a pergunta "qual número isso move?" antes de qualquer investimento. IA é só mais uma iniciativa que precisa passar por esse crivo. Sem o crivo, ela entra pelo entusiasmo e sai pela porta dos 56%.

Na prática, na stack facilita: a lógica de escolher IA especialista, amarrada a um processo com indicador, é exatamente o desenho do facilita.ia: assistentes focados em tarefas de gestão e qualidade, não um chatbot genérico que faz tudo e mede nada. A régua é sempre a mesma: a IA sugere e acelera, o número é medido pela gestão, nunca inventado pela IA.

O recado para 2026

A pesquisa da McKinsey encerra um debate e abre outro. O debate encerrado é "vale a pena usar IA?": 91% de adoção responde por si. O debate aberto é "por que só 6% capturam valor?", e a resposta não está no laboratório de tecnologia, está na sala de gestão. Empresa que mede vira high performer. Empresa que não mede vira estatística dos 56%.

Em 2026, a vantagem competitiva não será quem tem a IA mais avançada. Todo mundo terá acesso ao mesmo modelo, no mesmo mês, pelo mesmo preço. A vantagem será de quem transforma cada iniciativa de IA num KPI com dono, baseline e revisão. Isso não é inovação. É gestão básica, aplicada a uma ferramenta nova. E, como sempre, o básico bem feito é o que separa os 6% de todo o resto.

Klaus Fuchs
Klaus Fuchs Founder da facilita.etc. 15+ anos liderando gestão estratégica em saúde, educação e organizações sociais. Conduziu acreditações em uma das maiores OSS do Brasil. Escreve sobre o que pratica.

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