A cada trimestre alguém anuncia que o home office acabou, e a cada trimestre alguém rebate que o presencial é coisa do passado. Os dois estão errados, e o Guia Salarial 2026 da Michael Page mostra por quê: o modelo de trabalho não está indo pra um lugar só. Está se reorganizando, e empresa e profissional estão puxando pra lados diferentes.

Os números, sem torcida

O guia separa a visão das empresas da visão dos profissionais, e é nesse contraste que a coisa fica interessante:

  • Presencial integral subiu entre as empresas, de 36% para 42%. Entre os profissionais, ficou em 42%, com leve queda ante os 44% do estudo anterior.
  • Híbrido caiu entre as empresas, de 50% para 44%. Mas cresceu entre os profissionais, de 37% para 40%.

Leia devagar, porque é contraintuitivo. As empresas estão puxando de volta pro presencial e reduzindo o híbrido. Os profissionais estão indo na direção oposta, aumentando a adesão ao híbrido. O presencial integral voltou a ser o formato mais comum, mas não porque virou consenso. Virou o formato mais comum enquanto a preferência de quem trabalha caminha pro outro lado.

O descompasso é o dado, não o número isolado

O erro de leitura mais comum aqui é comemorar o "presencial voltou" ou lamentar o "híbrido caiu". O que importa não é o vencedor. É a distância entre os dois lados.

Quando a empresa aumenta presencial enquanto o profissional aumenta preferência por híbrido, abre-se uma tesoura. E tesoura entre o que a empresa impõe e o que a pessoa quer é, historicamente, um dos principais motores de saída silenciosa. A pessoa não bate a porta no dia do anúncio da volta ao escritório. Ela cumpre, reclama baixinho, e começa a considerar a vaga do concorrente que oferece o modelo que ela prefere.

O guia contextualiza que essa reorganização é uma decisão estratégica das empresas, buscando equilibrar produtividade, redução de custos, preferências individuais e qualidade de vida. Tudo legítimo. O ponto é que "redução de custos" e "preferências individuais" nem sempre apontam pra mesma direção, e quando a decisão pende só pro custo, a conta reaparece na retenção.

Por que não existe resposta única

A tentação é procurar a resposta certa: presencial, híbrido ou remoto? O guia deixa claro que a resposta é "depende", e depende de variáveis que só a própria empresa conhece: demanda operacional, cultura, tipo de função, momento do time.

Uma operação que precisa de sincronia física tem razões reais pra puxar presencial. Uma área de conhecimento distribuída perde pouco, e ganha em atração de talento, indo pra híbrido. O erro não é escolher um modelo. É escolher no escuro, por reflexo ("todo mundo está voltando") ou por custo isolado ("o escritório está pago, ocupa"), sem medir o efeito sobre engajamento e retenção do time específico.

Como decidir sem chutar

A diferença entre a empresa que acerta o modelo e a que perde gente por causa dele está em decidir com dado. Alguns hábitos:

  • Medir engajamento antes e depois da mudança. Se você puxou o presencial, o engajamento subiu, caiu ou ficou igual? Sem essa leitura, você está gerenciando modelo de trabalho no escuro.
  • Ouvir na 1:1, com rastro. A insatisfação com o modelo aparece nas conversas muito antes do pedido de demissão. Se essas conversas não ficam registradas, o sinal se perde.
  • Cruzar preferência com criticidade. Talvez o modelo rígido faça sentido pra maior parte, mas esteja empurrando pra porta justamente os especialistas mais difíceis de repor. Saber quem é crítico muda a conversa sobre flexibilizar exceções.

Onde o facilita.rh entra

Modelo de trabalho parece decisão de facilities, mas é decisão de gente, e gente se mede. O facilita.rh ajuda a enxergar o efeito das suas escolhas: o engajamento aparece na avaliação, as conversas de 1:1 ficam com rastro pra você ler o clima real, e a matriz 9-box mostra quem tem potencial e risco de saída, os primeiros a sair quando o modelo não encaixa. Assim a decisão de presencial ou híbrido deixa de ser aposta e passa a ter termômetro.

Se o tema de reter gente boa num ano apertado te interessa, veja também 45% das empresas não vão dar aumento em 2026, e isso é risco de turnover.

O modelo certo é o que você consegue medir

Não existe modelo de trabalho vencedor pra 2026. Existe o modelo que faz sentido pro seu negócio e que você acompanha de perto o suficiente pra corrigir quando ele começa a custar gente. A empresa que escolhe presencial ou híbrido por reflexo, e não olha mais, vai descobrir o efeito na entrevista de desligamento. A que mede vê o sinal antes, e ajusta enquanto ainda dá tempo.


Dados: Guia Salarial 2026, Michael Page (998 empresas e 7.147 profissionais no Brasil). Conteúdo informativo.

Modelo de trabalho é decisão de gente, e gente se mede

O facilita.rh ajuda a enxergar o efeito das suas escolhas de modelo: engajamento na avaliação, 1:1 com rastro e sinais de risco de saída na matriz 9-box. Decida presencial ou híbrido olhando o dado, não só o custo do metro quadrado.

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Klaus Fuchs
Klaus Fuchs · founder facilita.etc Bacharel em Administração (FAE) e Engenharia da Computação (PUC-PR). MBA em Controladoria e Finanças (UNINTER, 2018) e MBA em Gestão, Inovação e Serviços em Saúde (PUCRS, 2026). Pesquisa uso de IA aplicada à gestão estratégica desde 2015.